“A gripe não é tão inofensiva quanto parece”: sintomas e complicações a serem observados

Dependendo da cepa do vírus e da fragilidade do sistema imunológico, às vezes podem surgir complicações, alertam os médicos

A gripe geralmente se manifesta por três a cinco dias: febre, coriza, tosse, dores no corpo, pouco apetite, “até pouca paciência” são as principais características da ação do vírus em nosso organismo. Nada que não se resolva com alguns dias em casa, descanso, hidratação e antitérmicos (para febre). Mas, dependendo da cepa do vírus e da fragilidade do sistema imunológico, às vezes podem surgir complicações.

“A gripe não é tão inofensiva quanto parece”, explica à CNN Portugal o médico Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. “Como em qualquer doença, devemos estar sempre atentos a todos os sinais.”

O que é a gripe e quais são os sintomas?

“Influenza ou ‘Influenza’ é uma infecção viral da árvore respiratória superior, que geralmente causa febre, [ranho], tosse, dor de cabeça, mialgia e mal-estar geral. Em termos de gravidade apresenta grande variabilidade, desde situações assintomáticas a doença grave com envolvimento sistémico (generalizado)”, explica à CNN Portugal Mário Espiga Macedo, especialista em Medicina Interna do Hospital Lusíadas Porto.

“UMA gripe e resfriado (resfriado comum) às vezes são confundidos, pois ambos aparecem na mesma época do ano e apresentam sintomas respiratórios semelhantes, mas o resfriado na maioria das vezes não apresenta febre alta. Os seus agentes estão no mesmo vírus da família dos rinovírus e coronavírus”, esclarece Mário Espiga Macedo.

Deve-se ter em mente que o vírus “não está simplesmente alojado na nasorofaringe do paciente, mas pode e na maioria das vezes tem uma disseminação generalizada no corpo humano”, explica o médico. “A gripe ocorre mais frequentemente com viremia, mais ou menos intensa, e daí dores musculares (miosite) de intensidade e duração variáveis, sinais de hepatite, na maioria das vezes assintomática, cólicas intestinais com ou sem diarreia e vômitos, etc.” Portanto, embora quase sempre não cause complicações, é aconselhável estar atento à evolução dos sintomas.

Como tratar a gripe e quais cuidados devemos ter?

O diagnóstico da gripe é quase sempre clínico e raramente requer exames adicionais, mas às vezes eles são precisos. Seu curso é quase sempre benigno, e o tratamento, apesar da existência de antivirais, é feito com antitérmicos.

A gripe é transmitida de pessoa para pessoa através de partículas virais que andam no ar, daí os cuidados a serem tomados em ambientes mal ventilados. A vacina disponível para a população todos os anos é a forma mais simples e eficaz de prevenir a gripe. Este deve ser administrado principalmente a crianças e adultos em risco, idosos e grávidas, mas é alargado à população em geral.

As situações mais graves e menos frequentes, embora possam aparecer em qualquer pessoa, afectam mais facilmente as pessoas mais debilitadas e com piores condições de saúde, sublinha Mário Espiga Macedo. Entre eles estão crianças menores de seis anos e principalmente menores de dois anos, mas também adultos com mais de 65 anos. A outra população mais suscetível são os pacientes com doenças crônicas e mais graves, como: insuficiência cardíaca, insuficiência renal, diabéticos, isquemia cardíaca doença ou acidente vascular cerebral, pacientes hepáticos, pacientes transplantados, pacientes em hemodiálise, tratamentos imunossupressores, pacientes com doença respiratória crônica, etc.

Que complicações podem surgir?

Como complicações gripe são raras, mas podem acontecer. Geralmente aparecem principalmente em pessoas que já apresentam outras doenças e após alguns dias de doença. Quando a febre não diminui e os sintomas respiratórios persistem por mais de três dias, é aconselhável consultar um médico.

Pneumonia bacteriana

“A inflamação do sistema respiratório pode evoluir para quadros mais complicados”, sublinha Nuno Jacinto. “Uma das consequências mais frequentes da gripe é a pneumonia bacteriana, tanto em adultos como em crianças, que pode ser benigna, mas por vezes pode ser fatal em doentes de risco”, explica o médico Mário Espiga Macedo.

A principal bactéria responsável por este tipo de pneumonia é Streptococcus pneumoniae, que aproveita o fato de o sistema imunológico estar mais fragilizado devido à gripe. O tratamento pode ser feito em casa com repouso e antibióticos por sete a 14 dias, conforme orientação médica.

Miosite Infecciosa

É normal que a gripe cause dores musculares generalizadas, mas às vezes torna-se incapacitante. A miosite é uma inflamação dos músculos, que faz com que eles enfraqueçam, causando sintomas como dores musculares, fraqueza muscular e aumento da sensibilidade dos músculos. Geralmente, a miosite não é grave, diz Nuno Jacinto. Na maioria dos casos, é tratado com o tratamento da infecção que lhe deu origem. Em casos mais graves, a fisioterapia pode ser necessária para restaurar o movimento muscular.

encefalite viral

“Outra situação é a encefalite, que exige cuidados mais intensos”, diz Mário Espiga Macedo. Este tipo de infecção pode ser uma complicação da infecção por vírus relativamente comuns, como herpes simplex, adenovírus ou citomegalovírus, que se desenvolvem em excesso, devido a um sistema imunológico enfraquecido, e que podem afetar o cérebro. Afeta principalmente bebês e crianças, mas também pode acontecer em adultos com sistema imunológico enfraquecido.

Quando a encefalite não é muito grave, os sinais são semelhantes aos de outras doenças: febre não muito alta, dor de cabeça moderada, fadiga e perda de apetite. Confusão, desequilíbrio, desorientação, irritabilidade, sensibilidade à luz, rigidez de nuca e pescoço e vômitos também podem ocorrer. Geralmente, para confirmar o diagnóstico, são realizados um exame de ressonância magnética (RM) e punção lombar.

O tratamento da infecção deve ser feito de acordo com a prescrição médica. A fase aguda geralmente dura de uma a duas semanas, após o que a febre e outros sintomas desaparecem gradualmente. Algumas pessoas podem levar meses para se recuperar completamente.

Miocardite

“A miocardite (infarto) também apresenta por vezes formas complicadas que deixam sequelas nem sempre reversíveis”, salienta Mário Espiga Macedo. A miocardite é uma inflamação do músculo cardíaco, que geralmente surge como complicação de uma infecção por vírus. Os sintomas são muito semelhantes aos da gripe, além de dor no peito, inchaço das pernas e pés e tontura.

O diagnóstico da miocardite é feito pelo cardiologista por meio de exames como radiografia de tórax, eletrocardiograma ou ecocardiograma, que permitem a identificação de alterações no funcionamento do coração. O tratamento inclui medicamentos para tratar insuficiência cardíaca e arritmias e, raramente, cirurgia.

síndrome de Reye

“Uma forma grave, em crianças, é a Síndrome de Reye, na qual há envolvimento sistêmico de vários órgãos, cérebro, fígado, metabolismo lipídico”, explica Mário Espiga Macedo. Esta doença é rara, mas pode ocorrer após uma infecção viral, como gripe ou varicela, e quando aspirina ou salicilatos são administrados. Entre os sintomas, temos fraqueza ou paralisia muscular, vômitos frequentes e, nos casos mais graves, convulsões e até perda de consciência ou coma.

O tratamento deve ser feito em ambiente hospitalar e pode exigir internação em uma unidade de terapia intensiva. Com os avanços que foram feitos nos últimos anos em termos de diagnóstico e tratamento, a maioria dos pacientes sobrevive e alguns se recuperam completamente. No entanto, algumas pessoas podem sofrer danos cerebrais permanentes.

O que devemos nos atentar?

“Os doentes crónicos devem estar atentos e conhecer os sinais de uma possível descompensação das suas doenças”, alerta Nuno Jacinto. Pessoas com diabetes, doença coronariana, insuficiência cardíaca ou doença autoimune são as que devem ficar mais alertas.

Pessoas saudáveis ​​devem se preocupar se após três a cinco dias os sintomas persistirem, explica o médico. Se você tem falta de ar, tosse persistente que pode até causar vômito ou febre que não cede à medicação – esses são os principais sinais de alerta. Nesse caso, você deve consultar o médico: “Pode ser uma gripe muito grave que precisa de outro tratamento ou pode até não ser a gripe”.

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