Jornal Médico – Alexandra Teixeira: “A articulação do CSP com a área da Oncologia é fundamental para a prestação de cuidados de excelência”

Alexandra Teixeira: “A articulação do CSP com a área da Oncologia é fundamental para a prestação de cuidados de excelência”

Alexandra Teixeira, Assistente Hospitalar em Oncologia Médica do Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, coordena atualmente o Grupo de Trabalho Sobreviventes de Cancro da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), criado em 2019. Em conversa com o Jornal Médico, sobre o FOLLOW UP Oncological Diseases e Cuidados Primários de Saúde, o especialista revela que, “nos últimos anos, tem havido um aumento crescente do número de sobreviventes de cancro”, o que motivou a criação de um Grupo de Trabalho com as características de quem coordena. Sublinha ainda o papel das orientações sobre os sobreviventes de cancro, um projeto ainda em curso, que permitirá “padronizar as normas de acompanhamento [dos sobreviventes de cancro] não só no nível hospitalar, mas também na transferência do cuidado para a APS”. Leia a entrevista na íntegra.

Revista Médica (JM) | Existem dados sobre o número de sobreviventes de cancro em Portugal? Em 2016, a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) estimou cerca de 350 mil casos de sobreviventes de cancro no nosso país, reforçando que a taxa de mortalidade, nos cinco anos após o diagnóstico, rondaria os 50%. Esses números ainda são atuais?


Alexandra Teixeira (AT) |
Nos últimos anos, observa-se um aumento crescente no número de sobreviventes de câncer, influenciado não apenas pelo aumento de novos casos diagnosticados, mas também pela disponibilidade de terapias mais eficazes. Não há dados reais publicados sobre o número de sobreviventes existentes. Em 2017, o número estimado pelo LPPC era de meio milhão de sobreviventes. De acordo com dados recentemente publicados do Registo Nacional de Oncologia (RON), para 2018, foram diagnosticados cerca de 50.151 novos casos de cancro em Portugal (excluindo a Região Autónoma dos Açores), com 27.174 óbitos por cancro. As estimativas, para 2020 e segundo dados do Observatório Global do Câncer (Globocan), relatam 60.467 novos casos de câncer e 30.168 mortes.

JM | Em 2021, o Grupo de Trabalho Sobreviventes de Câncer organizou o 1º curso, voltado para médicos em Oncologia Médica e Medicina Geral e Familiar. É um projeto de continuidade?


AT |
Com a recente reestruturação dos Grupos de Trabalho pela atual direção da Sociedade Portuguesa de Oncologia, neste momento o nosso principal foco é conhecer todo o trabalho já realizado e dar continuidade ao mesmo. Certamente, o Curso de Sobreviventes de Cancro, realizado no ano passado, será um projeto a replicar, pois consideramos que a partilha entre Oncologistas e Médicos de Medicina Geral e Familiar é fundamental nesta matéria. No entanto, este projeto ainda não tem data definida.

JM | Um dos temas deste curso foi “Comunicação entre Oncologistas e Medicina Geral e Familiar”. Que necessidades o Grupo identificou até o momento para facilitar a comunicação entre os serviços hospitalares e a Atenção Primária à Saúde (CSP) no acompanhamento de sobreviventes de câncer (SDO)?

AT | Com o crescente número de pacientes oncológicos em acompanhamento nos serviços de Oncologia, torna-se fundamental a transferência do seguimento dos pacientes mantidos sob vigilância após alguns anos (pode ser de 5, 10 anos dependendo do contexto oncológico), e a comunicação com os o Cuidado é essencial. de Saúde Primária. Assim, é importante definir possíveis regras de acompanhamento, bem como estratégias para orientar possíveis toxicidades decorrentes de tratamentos oncológicos de longa duração. Todo este trabalho já foi pensado e escrito pelos membros anteriores do Grupo de Sobreviventes, faltando a sua validação final e a sua publicação/promoção.

JM | Em Portugal, qual é o modelo atual de acompanhamento dos sobreviventes de cancro?

AT | O contacto com colegas de diferentes serviços hospitalares e diferentes realidades demonstra que de facto não existe um modelo predefinido. Há instituições onde ao final de cinco anos, após o diagnóstico e sem evidência de recorrência da doença oncológica, os pacientes são encaminhados para acompanhamento pelo CSP. Há também serviços onde o acompanhamento é mantido por um período maior. A nossa perspetiva enquanto grupo será padronizar este período de vigilância e definir futuros padrões de acompanhamento, com base nas orientações da DGS. [Direção-Geral da Saúde] e diretrizes europeias e internacionais.

JM | Na perspectiva do Grupo de Trabalho, como deve funcionar a articulação entre os serviços hospitalares e a APS em relação ao acompanhamento de SDO?

AT | O objetivo da articulação é criar uma continuidade do cuidado prestado ao paciente. E, portanto, por um lado, permitir que o paciente seja mantido sob vigilância adequada em termos de horários e exames a serem realizados, mas também criar um canal próximo de comunicação por parte dos colegas da MGF para esclarecimento de dúvidas ou, se necessário, reavaliação do paciente.

JM | O acompanhamento das SDO na APS permitiria aliviar a sobrecarga existente e a pressão que se exerce sobre os serviços de Oncologia ao nível hospitalar, tendo em conta o aumento significativo das SDO?

AT | Sim. O aumento do número de novos casos e do número de sobreviventes tem pressionado os serviços de Oncologia, com aumento da carga assistencial. Assim, a possibilidade de parte desse acompanhamento ser realizado na APS, com orientação prévia, poderia ser uma alternativa para aliviar essa pressão.

JM | O grupo de trabalho “Sobreviventes do Cancro” da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) elaborou orientações sobre a abordagem aos sobreviventes de cancro, documento que foi apresentado no 18º Congresso Nacional de Oncologia. Qual é o objetivo deste documento e quais tópicos estão incluídos?

AT | Em primeiro lugar, gostaria de destacar a contribuição de colegas – como Dr. Carlos Sottomayor, Dr. Diogo Branco, Dra. Fernanda Estevinho – no trabalho desenvolvido na dinâmica de grupo. O objetivo do novo Grupo de Trabalho, que integra elementos como a Dra. Ana Martins e a Profa. Cláudia Vieira, é dar continuidade aos projetos já iniciados. Dessa forma, as diretrizes desenvolvidas dizem respeito não só à articulação com a APS, com normas para a vigilância de pacientes com câncer, mas também a temas como toxicidades tardias (dor crônica, linfedema, cardiotoxicidade, segundas neoplasias, toxicidade pulmonar ou neurológica) ou o impacto da doença na vida pessoal e profissional do paciente.

JM | Quais são os benefícios dessas diretrizes de acompanhamento de ODS para a APS? Permitirá uma maior uniformidade de cuidados e facilitará uma maior proximidade entre a Medicina Geral e Familiar e a Oncologia?

AT | Conforme mencionado anteriormente, a criação de padrões de acompanhamento permitirá uniformidade não apenas em nível hospitalar, mas também na transferência de cuidados para a APS. Permitirá também uma comunicação mais próxima e fácil entre o assistente do hospital e o assistente da MGF, para orientar possíveis recidivas, segundos tumores primários e toxicidades tardias resultantes dos tratamentos antineoplásicos realizados ou outras situações que necessitem de partilhar uma opinião.

JM | O questionário “Desafios no acompanhamento de sobreviventes de câncer na Atenção Primária à Saúde” menciona “o papel central da MGF na prevenção, diagnóstico e acompanhamento da pessoa com câncer e seus familiares, durante o tratamento ativo e após a fim do tratamento”. do período de vigilância na unidade de oncologia”. Dada a proximidade da MGF com os doentes e suas famílias, considera-os um dos maiores aliados dos médicos oncologistas ao longo do percurso dos doentes oncológicos?

AT | A articulação do CSP com a área de Oncologia é fundamental para a prestação de um atendimento de excelência. Desde o início na prevenção, com ênfase nas boas medidas higiênico-dietéticas e na aplicação adequada de rastreamentos, no diagnóstico com encaminhamento oportuno e no acompanhamento do paciente oncológico, seja durante o tratamento ativo com orientação para complicações gerenciáveis ​​no ambulatório clínica, ou na fase posterior de vigilância. Muitos doentes, devido às suas comorbilidades e/ou à distância do hospital, estão mais próximos do seu médico de família do que dos especialistas do hospital. Assim, e considerando que a multidisciplinaridade é a base da Oncologia, a MGF também deve ser aliada na prestação de cuidados aos doentes oncológicos.

Saiba mais sobre o Jornal Médico 134, aqui.

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