Média de óbitos por meningite cresce no país após baixa adesão à vacinação | Brasil


Média de mortes por meningite cresce no país após baixa adesão à vacinaçãoreprodução

Publicado em 30/09/2022 21:29

O Brasil já registrou 702 mortes por meningite este ano, segundo dados do Ministério da Saúde. A média de 78 óbitos por mês já é superior à do ano passado, quando foram 793 óbitos ao longo do ano, média mensal de 66. Em 2020, foram 442 óbitos, mas o número foi influenciado pela pandemia de covid-19.

O número de casos das diversas etiologias da doença chegou a 5.800 este ano, ainda abaixo do total de 2021, quando foram 6.800.

A vacinação é considerada a forma mais eficaz de prevenção da meningite bacteriana, mas a cobertura vacinal vem caindo nos últimos anos. A campanha nacional de multivacinação, que inclui vacinas contra outras doenças, terminaria nesta sexta-feira, dia 30, com pouco mais da metade (52,08%) do público-alvo vacinado contra o meningococo C. Devido à baixa cobertura, alguns estados estenderam a campanha até 31 de outubro.

O resultado, até agora, é o pior dos últimos cinco anos. No ano passado, a cobertura foi de 70,96%, em 2020 atingiu 78,57% e em 2019, 87,41%. Em 2018, 88,49% do público foi vacinado. A meta recomendada pelo ministério é de 95%.

A meningite é caracterizada pela infecção das meninges, as membranas que cobrem o cérebro e a medula espinhal. O tipo meningocócico é uma das formas mais graves de meningite bacteriana.

Dentre os vários tipos de meningite, a meningocócica C é a mais disseminada no Brasil e é tratada com a vacina meningocócica C. A primeira dose é administrada aos 3 meses de idade, a segunda aos cinco meses e o reforço aos 12 meses. . Esta vacina está liberada temporariamente para crianças de 5 a 10 anos e profissionais de saúde.

O ministério também disponibilizou a vacina meningocócica ACWY (conjugada) para proteção contra os sorogrupos identificados por essas cartas. Essa vacina é indicada para adolescentes de 11 e 12 anos, em dose única, mas o ministério a liberou para uso temporário, até setembro de 2023, para adolescentes de 13 e 14 anos.

A cobertura dessa vacina, disponível na rede pública apenas em 2020, ainda é baixa, mas vem subindo: foi de 18,41% em 2021 e chegou a 22,08% na campanha deste ano.

No Estado de São Paulo, foram registrados 295 óbitos por meningite este ano, 42% do total do país. O número de casos chegou a 2.841, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. A pasta diz que os casos neste ano são menores do que no período pré-pandemia. Nesta sexta-feira, a cobertura vacinal para meningite ficou em 71,7%, acima da média nacional.

Na capital paulista, foram registradas nove mortes este ano, entre 56 casos confirmados. O surto mais recente ocorreu na região de Vila Formosa e Aricanduva, com cinco casos de meningite meningocócica tipo C e um óbito – a vítima era uma mulher de 42 anos. 12.363 pessoas foram vacinadas na região nas últimas duas semanas, incluindo busca ativa de pessoas não vacinadas em suas residências.

Este ano, outros dois focos da mesma doença foram registrados em São Paulo. No Jardim São Luís, entre janeiro e março, foram três casos e duas pessoas morreram. Entre maio e junho, na região do Pari, houve dois casos e um óbito. A Secretaria Municipal de Saúde informou que o número de casos neste ano diminuiu 64% em relação a 2019, antes da pandemia de coronavírus. As mortes foram três vezes menores.

Nas cidades do interior, faltou vacina. A prefeitura de Marília divulgou nota no dia 24 informando que a falta do material conhecido como meningo C causou preocupação entre os moradores. “A prefeitura esclarece que a responsabilidade pelo abastecimento do município é do Estado, que, por sua vez, recebe os imunobiológicos do centro nacional de armazenamento do Ministério da Saúde”, disse.

Nesta sexta-feira, a prefeitura informou que a situação foi normalizada e foram disponibilizadas mais de 4.000 doses de meningo C, além de muito ACWY. A cidade tem 22 casos da doença e quatro mortes este ano.

No Paraná, ao contrário, houve perda de vacina porque o público esperado não compareceu para ser vacinado. Em nove municípios, incluindo Paranaguá, Ponta Grossa, Maringá e Foz do Iguaçu, 6.500 doses de ACWY meningocócica que deveriam ser administradas durante o mês de agosto estavam atrasadas e tiveram que ser descartadas, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. .

Em Minas Gerais, o número de óbitos e casos nos primeiros nove meses deste ano já supera os recordes de 2021. De janeiro a setembro foram 71 óbitos e 465 casos, enquanto no ano passado foram 51 óbitos e 459 casos. No estado, a cobertura vacinal atingiu 75%, enquanto a meta recomendada pelo Ministério é de 95%.

No município de Extrema, na região sul do estado, foram confirmados seis casos e dois óbitos pela doença nos últimos dois meses. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais enviou 30 mil doses para reforçar a vacinação na faixa etária de 15 a 59 anos, a mesma em que ocorreram os óbitos.

“Convido a todos que procurem nossos postos de vacinação, pois temos pontos itinerantes publicados nas redes sociais e também estamos vacinando nas indústrias”, disse a secretária municipal de Saúde, Patrícia Carneiro.

Sobre a queda na cobertura, o Ministério da Saúde informou que, desde 2016, identifica esse fenômeno, que, segundo o ministério, tem acontecido em todo o mundo. “Esta situação é tratada prioritariamente, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que está desenvolvendo uma série de ações para melhorar a cobertura vacinal”, disse.

O Ministério destacou que, mesmo nesse período de declínio, o Sistema Único de Saúde (SUS) continuou garantindo, anualmente, a disponibilidade de aproximadamente 300 milhões de doses de imunobiológicos. A pasta lembrou que é responsabilidade dos pais levar crianças e adolescentes aos postos de vacinação – são mais de 38 mil salas em todo o país.

Baixa cobertura pode levar a casos graves

Para a infectologista Raquel Stucchi, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o risco da baixa cobertura vacinal contra a meningite meningocócica é que o país volte a ter casos graves, surtos e epidemias de meningite como aconteceu na década de 1970.

“Essa baixa cobertura vacinal coloca nossas crianças em risco no sentido de que elas podem adoecer. A meningite meningocócica é uma grande preocupação porque é uma doença que tem uma letalidade muito alta, que às vezes leva à morte em um curto período de tempo. as crianças que sobrevivem ficam com sequelas graves, como perda de visão, audição e amputação de membros. É extremamente preocupante.”

O especialista diz que as meningites podem ser causadas por bactérias, vírus e fungos e são sempre um quadro grave. “A meningite viral, em geral, não costuma ser muito grave, mas não temos vacina. As meningites bacterianas são sempre muito graves. São causadas por haemophilus influenza tipo B, pneumococo e meningococo, e temos em nossas vacinas vacinais contra essas bactérias”.

Ela lembra que o quadro clínico de todas as meningites começa de forma semelhante, com febre alta, dores no corpo e muita dor de cabeça. A doença meningocócica é caracterizada pelo aparecimento de manchas vermelhas no corpo. “Febre, dor de cabeça e aparecimento de manchas vermelhas sugerem fortemente meningite meningocócica.”

De acordo com o Ministério da Saúde, a meningite é considerada uma doença endêmica no país, com casos registrados ao longo do ano, com surtos pontuais. A meningite bacteriana é mais comum no outono-inverno e a meningite viral na primavera e no verão.

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