No comício evangélico do candidato à Presidência do Brasil: O culto a Lula

Às 9h30 de sexta-feira, o sol brilhava forte em São Gonçalo. Para chegar lá, quem vem do Rio de Janeiro tem que atravessar a ponte Rio-Niterói e até mais além. A sensação periférica é evidente.

No antigo Clube Tamoio, agora pretensiosamente rebatizado como Centro Cultural Seven Music, a máquina do Partido dos Trabalhadores (PT) deve sediar um evento-chave da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva às eleições presidenciais de 2 de outubro: a reunião do ex – Presidente com eleitores evangélicos, fatia relevante de apoiadores de Jair Bolsonaro.

O local não é escolhido por acaso, São Gonçalo, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, é o segundo maior colégio eleitoral do estado e conhecido por ter uma das maiores concentrações de fiéis das inúmeras igrejas evangélicas.

Com as identificações penduradas no pescoço, as pessoas chegam e são encaminhadas às equipes de apoio, preparadas para prestar todos os esclarecimentos necessários. A atmosfera é pacífica, não há tensão no ar.

As pulseiras de papel são distribuídas de acordo com as características de cada participante, obedecendo a um código que poucos têm a chave do entendimento. A pulseira de imprensa é rosa. Há amarelos, laranjas, vermelhos e até dourados. Dependendo da cor da pulseira, os circuitos de circulação abrem ou fecham, você se aproxima ou não do palco.

As camisas vermelhas colorem o público. A cor da pele é principalmente marrom. As mulheres dominam as presenças. Mas há um pouco de tudo, homens, crianças, brancos. Muitos vestem camisas com frases religiosas como “livra-me de todo mal”, outras são mais concretas, como “Vaccina, picanha, cerveja e Lula” ou “Lula, feliz Brasil de novo”. Destacam-se as que combinam o “PT” vermelho com a efígie de Jesus coroado de espinhos, nas quais a semelhança com Lula da Silva é evidente, não fosse o Cristo um pouco mais magro.

E se dentro do pavilhão o público estava ficando arrumado, quem estava dentro do local não fazia ideia de que lá fora já havia um confronto entre um apoiador de Jair Bolsonaro e alguns dos participantes do comício.

Lula ainda não havia chegado ao evento quando começou a confusão. Segundo o site UOL, tudo começou quando um carro coberto de adesivos com imagens do Presidente da República passou na porta do Clube Tamoio, em meio a apoiadores de Lula da Silvas. A situação foi considerada uma provocação e apenas alguém bateu no carro para o motorista sair e a confusão começou, envolvendo policiais e forças de segurança do evento. Terminou com a intervenção da polícia federal fortemente armada.

Às 10h, o clima se anima com a chegada do tão esperado Lula da Silva. Acompanhados do candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, da esposa Janja, do candidato a governador do Rio de Janeiro Marcelo Freixo, do histórico “PT” Aluízio Mercadante e do ex-governador do Rio, candidato a deputado federal e fiel evangélica, Benedita da Silva, Lula sobe ao palco, se despede da plateia e volta a se retirar atrás das cortinas.

Meia hora depois, Lula volta, com todos os candidatos e apoiadores. Os aplausos enchem o auditório, com cerca de sete mil pessoas presentes. Há quem chore, bata palmas, cante, levante a mão para o Senhor e Lula. Sentado entre Janja e Alckmin, assiste ao desfile de palestrantes, muitos já bastante conhecidos nas comunidades de São Gonçalo e arredores. A cada discurso, o candidato a Presidente levanta-se para cumprimentar o orador.

Canções religiosas seguem as falas – “Segure a mão de Deus e vá” -, animando a plateia, intercaladas com mensagens de ordem como “Lulinha chegou galera! Ele também é cristão.” O contexto evangélico marca a manifestação, diferenciando-a da maioria das ações de campanha. Uma tela mostra a bandeira do Brasil e lá está a única verde e amarela que se vê. No alto-falante ouve-se a promessa: “Jesus prometido e nunca o deixará.” E da população vem a resposta: “Quem quer Lula Presidente, diga amém”. Continuando o ato, outra oração – “Olá, olá, olá, Lula, Lula….”

O hino brasileiro é cantado, todo em pé e com aparente convicção. E o evento segue, ora com ares de culto evangélico, ora com tiques de comício político. Um dos palestrantes foi o pastor Sérgio Duzilek, que afirmou que “o povo não aguenta mais quatro anos com esse presidente da República que só engana, engana e governa para a elite”, reconhecendo também que Lula da Silva foi vítima de “injustiça do judiciário e das parcelas da igreja”. Completar: A igreja evangélica tem que pedir perdão ao Senhor”. Afirmação recebida com entusiasmo pelo público, juntou-se ao minha culpa.

Louve o Senhor

Dois dos momentos mais emocionantes foram a oração liderada pela “fiel Priscila” e o louvor liderado pela “missionária Suelen Costa”. coro que levou o público a cantar Tem coisas boas vindo, tem coisas boas acontecendo. Não importa o que você sofreu, o importante é que você sobreviveu.”

Quando Lula toma a palavra, o público treme sob os aplausos e os gritos. O político parece muito emocionado, fala sobre suas intenções como candidato às eleições, com foco no emprego e na educação, mas o que diz é a convicção com que promete: “Farei o que precisa ser feito naquele país .” E as pessoas respondem com vontade de acreditar mais uma vez: “Amém!”

Lula também apareceu para se deixar contagiar pela sensação de emoção na flora da pele. Posso olhar cada mulher, cada senhora aqui, cada jovem na cara e dizer: nunca houve na história do Brasil um presidente que tratasse religião e igrejas com a democracia que eu cuidei neste país. Duvido. Duvido que alguém tenha cuidado e garantido a liberdade de criar igrejas, a liberdade de praticar sua fé, eles nunca tiveram”, disse ela.

Ao final do discurso de Lula, um dos pastores volta ao palco para abençoar o candidato presidencial. “Senhor, desfaça as obras contra a vida deste homem”, ela implorou, como se tentasse abrir caminho para uma vitória eleitoral. Naquela época, ainda não era de conhecimento geral que um partidário de Lula havia sido assassinado por um partidário de Jair Bolsonaro, no Mato Grosso. O Brasil é um país continental e as distâncias são enormes e a informação tem que ser gerenciada. Nestas eleições presidenciais, todas as decisões contam. Como votos.

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