‘Revolução dos Pacotes’: Projetos de Compostagem Coletiva mostram o valor dos resíduos orgânicos | Sociedade

Os resíduos orgânicos correspondem a mais da metade dos resíduos sólidos urbanos gerados nas residências brasileiras. Esse volume é depositado em grande parte em aterros sanitários, onde se torna uma fonte de gás metano quando se decompõe. Os resíduos orgânicos dispostos em aterros são a terceira maior fonte de emissões de gases de efeito estufa nas cidades brasileiras, atrás apenas do transporte e do consumo de energia.

Nos próximos 20 anos, o potencial de impacto ambiental do gás metano é considerado 80 vezes maior que o do CO2, grande responsável pelo aquecimento global, afirma Victor Argentino, consultor em compostagem, gestão de resíduos sólidos e economia circular. Segundo o especialista, o lixo orgânico representa desafios ambientais e sanitários nos cerca de 2.800 lixões onde está presente, contaminando o solo e a água, além de atrair vetores de doenças, como mosquitos e ratos.

“O lixo orgânico é naturalmente degradado. Poderia fechar o ciclo facilmente, mas quando se acumula em grande quantidade sem os devidos cuidados, torna-se um grande problema”, explica Sylmara Dias, professora do curso de Gestão Ambiental da USP. A compostagem, que consiste em transformar matéria orgânica em adubo, é uma das formas de fechar o ciclo de que fala Sylmara.

Ao colaborar com a destinação correta dos resíduos orgânicos, a solução acaba ajudando também na produtividade agrícola e no combate à fome. “Estamos cada vez mais com solos mais pobres porque desperdiçamos resíduos orgânicos em vez de devolvê-los à terra”, diz Victor. Segundo o consultor, o Brasil é 85% dependente de fertilizantes químicos importados, um recurso finito. “Isso gera problemas econômicos, como o aumento dos preços dos alimentos devido à dolarização do sistema alimentar.”

Para resolver um problema tão amplo, a ação individual é insuficiente. São necessários projetos coletivos e políticas públicas para abordar o tema em sua devida escala, argumentam os especialistas. As iniciativas de compostagem coletiva no Brasil e no mundo, sejam comunitárias, públicas ou privadas, mostram o alto valor de transformar os resíduos orgânicos em uma mudança profunda na sociedade.

revolução do balde

Iniciativa da comunidade Chico Mendes, em Santa Catarina, a Revolução dos Baldinhos é um dos exemplos mais expressivos dessa transformação. Em 2008, seus moradores buscaram soluções para a falta de coleta de lixo que causou uma infestação de ratos no local. Para eliminar a fonte de infestações, o bairro passou a depositar resíduos orgânicos em baldes para posterior tratamento coletivo.

Empresa Ciclo Orgânico coleta e composta resíduos orgânicos no Rio de Janeiro — Foto: Divulgação/Ciclo Orgânico

Hoje, 2.400 pessoas são beneficiadas pelo projeto, que abrange duas das 12 comunidades do complexo Monte Cristo. “A gente faz política com a visão da periferia. É uma proposta que vem de baixo para cima, colocando a comunidade na discussão, buscando políticas públicas, justiça social e desenvolvimento”, resume a coordenadora, Cíntia Cruz.

O projeto teve tanto sucesso que mobilizou a criação de políticas públicas em todo o Brasil. “Hoje, Florianópolis tem um movimento muito importante para o tratamento de resíduos orgânicos, inclusive com legislação dedicada à compostagem”, lembra Sylmara. A iniciativa já foi replicada em estados como Pará, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. “É muito gratificante saber que somos modelo para muitos. E o mais impressionante é ter certeza de que as favelas são poder e que podemos, sim, fazer por nós”, diz Cíntia.

Os baldes de Floripa inspiraram o engenheiro ambiental Lucas Chiabi a criar o Ciclo Orgânico em 2015. Localizada no Rio de Janeiro, é a primeira empresa de coleta e compostagem de lixo orgânico residencial do Brasil. Funciona assim: os assinantes pagam uma mensalidade para que seus resíduos orgânicos, coletados em baldes, sejam retirados de bicicleta pela empresa, responsável pela compostagem. “Devolvemos o adubo aos clientes junto com as sementes de hortaliças. A ideia é fechar o ciclo alimentar”, explica.

Para Lucas, a compostagem coletiva é importante para que a sociedade veja o real valor do lixo orgânico e o impacto positivo que ele pode gerar quando tratado adequadamente. Em seus sete anos de existência, o projeto realizou 54.000 coletas, transformando 3.000 toneladas de resíduos orgânicos em 1.800 toneladas de composto, o que evitou a emissão de 2.300 toneladas de CO2eq – a mesma quantidade que 34.000 árvores capturariam em 10 anos.

Mais de 2 mil pessoas são impactadas direta e indiretamente pelos serviços da empresa. “Se um projeto relativamente pequeno pode gerar tanto impacto legal, imagina se fizesse parte de políticas públicas e planejamento urbano?”, reflete Lucas. Ele explica que seu objetivo é atender cada vez mais pessoas, reduzindo custos e tornando o programa mais acessível.

Para incentivar a expansão do modelo para mais cidades, criou a Associação Brasileira de Compostagem, voltada para empresas da área. “A ideia é levar conhecimento e ajudar outros empreendedores a potencializar seus negócios, ampliando o impacto da compostagem e tornando-a parte da nossa cultura”.

Empresa Ciclo Orgânico coleta e composta resíduos orgânicos no Rio de Janeiro — Foto: Divulgação/Ciclo Orgânico

A cidade de São Paulo teve, por 40 anos, duas megausinas de compostagem. No entanto, o que poderia ter sido uma excelente forma de destinar os resíduos orgânicos de forma correta e em larga escala se transformou em um grande problema. “Devido à segregação inadequada dos resíduos, o composto produzido era de baixa qualidade. No meio havia papel, plástico e até cacos de vidro. Foi um fiasco”, lamenta Sylmara.

Segundo o especialista, o fracasso do projeto nos anos 2000 não pode ser atribuído às dificuldades de compostagem em uma megalópole como São Paulo. Em Nova York e São Francisco, nos Estados Unidos, por exemplo, programas semelhantes envolvem múltiplas escalas de compostagem – do indivíduo à comunidade – com o incentivo das prefeituras e um esforço do governo para comunicar sobre a separação adequada dos resíduos.

“Em algumas cidades europeias, a legislação proíbe o envio de resíduos sólidos urbanos para aterros. Isso resultou em inúmeras soluções, incluindo incentivos econômicos para a participação dos cidadãos. Austrália e Nova Zelândia também têm uma série de incentivos como esses”, exemplifica Sylmara.

Assine a nossa newsletter aqui

“As políticas públicas são a chave para resolver a questão do lixo orgânico. A iniciativa privada nunca resolveu o problema do lixo no mundo, nem mesmo com ações comunitárias”, observa Victor. “Todos os países que conseguiram avançar foram por meio de pesados ​​investimentos públicos, incentivos econômicos, multas etc.”

Para ele, é evidente a expansão dos projetos de compostagem coletiva no Brasil. Na página Composteiros do Brasil, por exemplo, é possível acessar um mapa com as mais de 2 mil iniciativas de compostagem existentes no país hoje. Essa evolução é de grande importância para conscientizar a sociedade civil sobre o tema e mobilizá-la para exigir iniciativas de maior envergadura por parte do poder público, segundo o especialista.

O consultor também vê avanços na criação de planos municipais e nacionais de resíduos nos últimos anos, além do crescente investimento da iniciativa privada, com a abertura de novas unidades de compostagem. Mas ele considera que ainda é preciso reconhecer o lixo orgânico como um recurso valioso e a compostagem como um trabalho que precisa ser remunerado e ter incentivos econômicos.

“É preciso investir principalmente na infraestrutura de compostagem e recolher o lixo em três frações: orgânicos compostáveis, recicláveis ​​secos e resíduos”, sugere. “Só então os orgânicos entram na compostagem e se tornam compostos orgânicos de alta qualidade. Sem isso, temos um composto contaminado com restrições de uso.”

Cíntia concorda que é preciso “parar de enterrar dinheiro público” e valorizar o lixo orgânico por meio da compostagem. Dessa forma, o recurso poderia ser investido em serviços básicos para a população, incluindo saúde, educação e moradia, argumenta. “Em Floripa, o segundo maior orçamento é lixo. Queremos que esse trabalho, em nível nacional, seja remunerado como pagamento por serviços ambientais”, defende Cíntia.

O “X da questão”, para ela, é o grande gerador, que deve participar efetivamente das discussões sobre políticas públicas. “O ser humano que gera o lixo compra do grande gerador, que produz sem pensar no impacto e é quem mais se beneficia. Ele precisa estar à mesa com a sociedade civil”, propõe.

“Hoje, quem opta pela compostagem acaba pagando mais por isso do que quem está poluindo, quando deveria ser o contrário”, reclama Lucas. Mesmo assim, ele vê um papel crescente dos governos na criação de incentivos econômicos e aumento do interesse das empresas nas esferas ESG (ambiental, social e governança), além de um maior engajamento da população no tema, ingredientes essenciais para uma transição para a consolidação da compostagem como política no país.

Sylmara concorda que a compostagem coletiva é uma importante forma de solucionar a enorme quantidade de resíduos orgânicos gerados diariamente, exigindo mobilização social e atenção estratégica do poder público. Mas ele considera que são conhecidos pelo menos 13 tipos de soluções para os resíduos orgânicos: além da compostagem, incluem doação de alimentos, produção de biomateriais (como tecidos) e biodigestão, que produz energia e composto orgânico.

“Precisamos pensar em múltiplas soluções, pois assim a escala de cada uma dessas operações é reduzida, tornando-as menos onerosas e mais viáveis”, explica. “Para isso, é preciso ter um diagnóstico preciso da caracterização desses resíduos e as soluções adequadas para cada contexto, seja financeiro ou humano, levando em consideração o conhecimento de cada comunidade”.

Para isso, segundo Sylmara, é necessária uma política sistêmica, que articule os diversos atores envolvidos, sejam eles públicos, privados, geradores de resíduos, usuários e trabalhadores das diversas soluções. “Os resíduos orgânicos podem ser uma importante fonte de valor se bem manuseados ou uma fonte de impacto”, diz ela. “É preciso vontade política para parar de acumular montanhas de resíduos em aterros e, em vez disso, desenvolver rotas tecnológicas que agreguem valor a esse material”.

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*