Rotavírus causa um terço das hospitalizações por diarreia em crianças menores de 5 anos em países pobres

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A infecção por rotavírus humano é responsável por 1 em cada 3 (33,5%) hospitalizações por diarreia infantil em crianças menores de cinco anos em países de baixa e média renda.

Quando separados por faixa etária, o rotavírus continuou sendo o principal agente causador de internação por diarreia em todas as faixas etárias, de 0 a 59 meses, embora a infecção por Shigella (bactéria) tenha sido proporcionalmente maior em crianças mais velhas (chegando a 17,9% em crianças de 2 a 5 anos contra 14,3% quando consideradas todas as faixas etárias).

Em casos mais graves, a diarreia resultante da infecção pode levar à morte. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de meio milhão de crianças em todo o mundo morrem anualmente por complicações da diarreia aguda.

Os dados são de um estudo global publicado na revista científica BMJ Global Health. A pesquisa, financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates, analisou casos de internação infantil em 33 centros de vigilância de doenças infecciosas (hospitais sentinela, com registro de pelo menos 100 internações por diarreia em menores de cinco anos) em 28 – e países de renda média em 2017 e 2018.

Entre os países estão Bolívia, Equador, Paraguai e Peru na América do Sul. O Brasil não foi incluído, mas possui centros de referência para monitorar os chamados vírus gastroentéricos, entre eles a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro.

Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram amostras de fezes de quase 26.000 pacientes hospitalizados por diarreia com menos de cinco anos e testaram aleatoriamente um quinto deles. As análises consistiram em um exame do tipo PCR, que busca o material genético do patógeno causador da infecção – que pode ser viral, bacteriano ou outro.

O rotavírus esteve presente em 33,5% das amostras, enquanto os outros agentes encontrados foram adenovírus (19,2%), norovírus (18%), bactéria Shigella (14,3%) e sapovírus (10%). Outros 12 tipos diferentes de microrganismos, incluindo a bactéria Escherichia coli e o parasita Cryptosporidium, foram encontrados em até 1% dos materiais.

A Shigella também foi a principal responsável pela hospitalização infantil nos países da América Central (19,2%), enquanto na América do Sul (o estudo não incluiu o Brasil) foram os vírus do tipo norovírus (22,2%).

Segundo os pesquisadores, o fato de o rotavírus não ser o principal agente causador da diarreia nos países da América Latina se deve à introdução de um programa nacional de imunização desde 2010. Ainda segundo o estudo, a introdução da vacinação reduziu em mais de 50% o número de crianças internadas nesses locais (taxa de internação de 42,1%, onde não há imunização, para 20,8%).

Para José Paulo Gagliardi Leite, pesquisador do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e um dos autores do estudo, a introdução da vacinação muda o comportamento desse e de outros patógenos, que passam a ser mais prevalente.

“A criança só terá maturidade imunológica aos 3 a 4 anos, então o que vemos após a imunização é uma internação mais tardia, e isso é importante porque após infecções respiratórias agudas a diarreia é a principal causa de morbimortalidade. [agravamento da saúde com risco de morte] em crianças menores de 5 anos”, diz.

Segundo outros levantamentos, a introdução da vacina contra o rotavírus humano foi eficaz na redução de 40% das infecções pelo vírus em crianças, o que coincide com o resultado apontado no estudo.

No entanto, a cobertura vacinal contra rotavírus no Brasil vem caindo desde 2018, segundo dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI, retirados do DataSUS). Depois de cair de 2016 para 2017, a aplicação cresceu em 2018, chegando a 91,33%. Depois, a taxa caiu para 85,40% em 2019, 77,29% em 2020 e 70,53% em 2021

Dados de 2022, ainda parciais, mostram que menos da metade das crianças até agora receberam a vacina nos estados, com 45,33%.

Segundo os pesquisadores, mesmo com a presença da vacinação, algumas regiões do mundo continuaram com alta circulação de rotavírus, o que pode ser explicado pela cobertura vacinal insuficiente, pelo alto custo que as infecções por rotavírus continuam apresentando na população e pela baixa circulação de outros patógenos nesses países.

Os cientistas concluem com uma mensagem da importância de aumentar a cobertura vacinal em países onde a prevalência do rotavírus ainda é a principal causa de hospitalização por diarreia em crianças e também de buscar vacinas mais eficazes – atualmente, a vacina disponível tem eficácia de 50% para 60%.

“Os dados confirmam a importância de continuar e ampliar a cobertura e a introdução da vacinação contra o rotavírus, conforme preconizado pela OMS, que prevê que todas as crianças menores de 5 anos sejam imunizadas com pelo menos uma dose, mas pouco menos da metade das crianças nascidas em 2018 globalmente foram imunizados”, dizem os cientistas.

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