Vômito de toxina ajuda cientista a desvendar o mistério do meteorito marciano | Ciência e Saúde

Um cientista de Glasgow (Reino Unido) pode ter ajudado a resolver um mistério centenário sobre a descoberta de um meteorito marciano, graças a uma toxina que causa vômito.

Batizado de Lafayette, o meteorito foi encontrado em 1929 na gaveta do Departamento de Biologia da Universidade de Purdue, que fica em Indiana (Estados Unidos), mas ninguém consegue lembrar de onde veio, relatou o BBC.

Existe uma teoria de que o meteorito foi doado por um estudante negro que o testemunhou pousar em uma lagoa enquanto pescava. Aine O’Brienum geoquímico orgânico ambiental e planetário da Universidade de Glasgow, começou a investigar a história há dois anos, mas só agora há informações sobre quem era o menino e quando o objeto foi entregue.

O interesse de O’Brien começou quando sua equipe recebeu uma pequena fração do meteorito enviado pelo Museu de História Natural de Londres. “É um meteorito de Marte e eles são realmente raros”, disse ela. “Só isso o torna realmente precioso. Mas nem todos os meteoritos em Marte estão em tão boas condições quanto Lafayette. Deve ter sido apanhado logo depois de cair, porque senão a borda externa teria se desgastado”, explicou ela.

O pesquisador usou espectrometria de massa sofisticada para descobrir do que o meteorito era feito. O objetivo do experimento era procurar moléculas orgânicas preservadas e evidências que pudessem ajudá-la a aprender mais sobre a possibilidade de vida em Marte.

Lafayette teria sido doada por um estudante negro para a Purdue University, em Indiana (Estados Unidos) – Foto: Reprodução Smithsonian Institution

“Eventualmente, obtivemos uma longa lista de diferentes compostos químicos. A maioria deles tinha nomes muito longos e chatos, mas um deles se chamava vomitoxina, o que achei legal, então comecei a investigar”, disse O’Brien.

Ela descobriu que a vomitoxina, ou desoxinivalenol (DON), estava presente em um fungo que contamina grãos como milho, trigo e aveia. Além disso, causa doenças em humanos e animais quando ingerido, sendo os suínos particularmente afetados.

Diante disso, a cientista mencionou a vomitoxina ao seu supervisor, que lhe contou sobre as origens da descoberta de Lafayette e sugeriu que o fungo poderia afetar as plantações em Indiana. “Havia uma professora assistente na Purdue University, Marissa Tremblay, que eu conhecia em Glasgow. Então enviei uma mensagem a ela no Twitter e nós, junto com a bibliotecária, começamos a fazer um trabalho de detetive”, revelou a BBC.

O grupo entrou em contato com os departamentos de Agronomia e Botânica e Fitopatologia da universidade para saber mais sobre a prevalência histórica do fungo no condado de Tippecanoe, Indiana, onde Purdue está localizada. Os registros mostraram que houve uma queda acentuada no rendimento das colheitas em 1919 e outra queda menor em 1927 – a época em que o fungo era mais prevalente nos 20 anos anteriores a 1931, quando Lafayette foi realmente identificado como um meteorito.

A poeira das plantações afetadas pode ter levado a vomitoxina para os cursos d’água circundantes e o meteorito teria se contaminado se, como a história sugere, caísse em uma lagoa.

Os arquivistas da Purdue University examinaram os anuários para identificar os estudantes negros matriculados na época. Três alunos foram encontrados: Julius Lee Morgan, Clinton Edward Shaw e Hermanze Edwin Fauntleroy – todos matriculados em 1919. Um quarto, no entanto, chamado Clyde Silance, estava estudando lá em 1927.

Da esquerda para a direita: Hermanze Edwin Fauntleroy, Clinton Edward Shaw, Julius Lee Morgan e Clyde Silance — Foto: Reprodução Purdue University/BBC

Os pesquisadores acreditam que um deles pode ter encontrado Lafayette, como sugere a história de origem.

O’Brien disse à BBC que Lafayette é uma amostra de meteorito verdadeiramente bonita que ensinou muito sobre Marte em estudos anteriores. “É por isso que eles merecem o crédito, certo? Você acrescenta o fato de que eles eram estudantes afro-americanos em uma universidade que tinha tão poucos. Todos nós conhecemos as histórias de racismo na América dos anos 1920.”

Ela admite que talvez nunca seja possível identificar qual dos meninos descobriu o meteorito, mas está feliz por ter entendido o que aconteceu. Por outro lado, ela lembra que só conseguiram inventar esses nomes porque a universidade tinha poucos alunos negros. “Eu não quero fugir do fato de que esta é uma grande parte da história”, concluiu.

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